sexta-feira, 20 de abril de 2018

[Conto] Desconectado

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Samuel Oranjee Blu
Desconectado
www.samueloranjee.com

Conto escrito especialmente para a participação no
Concurso Literário Brasil em Prosa – Julho de 2015.

Dedico este conto a todas as pessoas com as quais posso experimentar sentimentos autênticos, enquanto desconectado. Obrigado por fazerem parte da minha vida e pelo incentivo para continuar escrevendo.


Desconectado
A contagem regressiva se aproximava do zero, esta informação mostrada em um pequeno conjunto de pixels no canto superior direito da tela indicava o fim de mais um dia de produção. Por isso, Axel conferiu se seus trabalhos foram salvos automaticamente, retirou-se da frente do seu ultra-computador e deitou-se em sua cama. Sentia-se fadigado, sua mente borbulhava de ideias para aperfeiçoar seus algoritmos e teria que esperar até o outro dia para voltar ao trabalho.
Enquanto estava ali deitado, observando no teto a projeção do céu estrelado que programara aos 5 anos de idade e que seu avô alimentou com uma pequena placa solar, percebeu que não conseguiria dormir. Rolou de um lado para outro, mas não encontrou uma posição confortável. Até que, por fim, resolveu caminhar pela casa.
Só de pensar em abrir a porta do seu quarto, o corpo dele começou a tremer de emoção e seu coração acelerou com tanta adrenalina. Desde os 6 anos de idade, ele fora proibido de sair do quarto para que seu nível de produtividade aumentasse e contribuísse com a riqueza de sua gananciosa mãe.
Assim que abriu a porta, que surpreendentemente estava destravada, encontrou um corredor iluminado por pequenas tochas nas paredes. Toda a energia da casa fora desligada quando acabou o horário de trabalho. Pelo que vira, não havia nenhum sistema que ligasse aquelas tochas eletronicamente, nem havia energia para tal, logo começou a pensar sobre como e quem as acendera.
Ele deu passos em direção ao lado mais iluminado do corredor. No final, virou à direita e avistou uma lareira acesa. Ficou paralisado porque, mesmo sem lembrar de ter estado ali antes, já havia sonhado com aquele lugar. Nos sonhos, geralmente estava com seu falecido avô escutando histórias da juventude dele no início do século XXI. Mas a nostalgia que invadiu seu peito o fez questionar se eram sonhos ou lembranças.
Axel aproximou-se da poltrona para sentir-se menos saudoso, foi quando avistou uma garota adormecida com um livro em mãos. Ele nunca tinha visto aquela jovem em pixels. Para ser sincero, ele nunca tinha visto alguém de sua idade tão fisicamente perto. Encarou tanto aquela garota que não percebeu que havia se agachado para ver melhor.
Rosette acordou com aqueles olhos a encarando, chegou a soltar um grito de susto que consequentemente assustou Axel. Ela não acreditava no que via: Axel Campbell estava, pela primeira vez em 10 anos, fora do quarto.
― Axel, você está bem? Por que saiu do seu quarto?
Há anos ele não pronunciava palavra alguma, teve medo de cometer algum erro fonético. Então, apenas forçou um sorriso.
Ele estendeu a mão e pegou o livro que Rosette deixara cair quando acordou, folheou estranhando aquele objeto antigo e parou ao encontrar a assinatura do seu avô na página de título.
― Foi seu avô que me deu este livro. Eu lembro dele lendo para nós, sentado nesta poltrona, enquanto coloríamos um livro ilustrado até cairmos no sono neste carpete.
Aquelas palavras o fez lembrar vagamente aquele momento. Logo concluiu que aquela só podia ser a filha da empregada – a única pessoa que entra no quarto dele – que não tem condições financeiras para ter acesso as tecnologias mais avançadas e levava uma vida bastante simples. Axel não entendia como era possível, mas apostaria sem medo que Rosette nunca esteve conectada à rede.
― Rosette?!
― Nossa, você lembrou de mim. Fiquei muito feliz! – Falou empolgada mostrando um belo sorriso.
O sorriso sincero dela fez com que Axel sentisse um calor em seu coração. Um sentimento que ele nunca sentira antes.
― Desculpas, Axel. Realmente, foi muito bom te ver. Gostaria de continuar conversando, mas tenho que ir encontrar-me com uns amigos. Marquei às 20 horas e 17 minutos.
Axel sabia que “horas” e “minutos” eram palavras usadas antigamente para quantificar o tempo, mas há décadas que o tempo passara a ser relativo a cada indivíduo e contado em bits, bytes e outras medidas de dados, de acordo com transferências de arquivos online. Por isso, nunca aprendera a usar um relógio. Até porque, para ele, a representação mais próxima de um relógio era o contador regressivo.
― Contatos? – Perguntou Axel tentando corrigir o uso da palavra “amigos”, que fora utilizada erroneamente em redes sociais antigas.
― Amigos mesmo. Vamos fazer um luau na praça.
Rosette percebeu que talvez Axel não soubesse o que era um luau, mas sentiu que a melhor explicação era vivenciar um.
― Quer vir? Vai ser legal.
Houve um silêncio, não porque Axel desconhecia aquela gíria ultrapassada, ele ficou travado por medo só de pensar nas diversas coisas desconhecidas que encontraria lá fora. Rosette não podia esperar uma resposta, já estava atrasada, então foi andando em direção a porta.
― Foi um prazer te rever.
Ela voltou, o abraçou rapidamente como costumava fazer na infância e saiu porta a fora. Da janela, Axel viu Rosette atravessar a rua iluminada pela lua cheia e encontrar os amigos.
Depois que Rosette saiu, Axel observou por um momento o verdadeiro céu estrelado e sentiu falta dos sentimentos que acabara de experimentar. Já não era mais o mesmo que passou 10 anos sem sair do quarto.
Enquanto caminhava até sua cama, refletiu sobre a quantidade de contatos que tinha na agenda, mas não podia classificar nenhum como amigo. Todos os seus bilhões de contatos estavam muito envolvidos com projetos tecnológicos e vidas virtuais, assim dificultando relacionamentos sociais fora do mundo virtual. Como nunca os viu pessoalmente, começou a questionar a existência de cada um deles.
Quando deitou na cama, sua mente não estava mais borbulhando de ideias. Pelo contrário, estava tão vazia quanto sua lista de amigos. Pela primeira vez, ele adormeceu com o propósito de esquecer a solidão que as tecnologias o proporcionou sem que este percebesse.
Desconectado pôde experimentar sentimentos mais autênticos e foi justamente com estes sentimentos, despertados pelo encontro com Rosette, que ele passou a sonhar e esperar ansioso para torná-los parte de sua vida ao amanhecer.

Para meus queridos leitores!
Obrigado por ler este conto. Se você gostou de lê-lo, eu adoraria saber sua opinião sobre ele. Por favor, dedique alguns minutos para avaliar e escrever um comentário aqui no post. Ah, fique a vontade para compartilhar este link com seus amigos.
Você pode conhecer mais sobre mim, basta explorar meu blog www.samueloranjee.com e me seguir no Instagram [@SamuelOranjee].
Atenciosamente, Samuel Oranjee Blu.

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